Entrevista a João Augusto Moura
Entrevista realizada em 18/1/2009
por Madalena Barbosa
João Augusto Moura, promissor novilheiro, convidou a equipa do Sol e Sombra para assistir a um treino na herdade do seu tio, em Monforte. Depois do treino, em
que também participou o Grupo de Forcados Amadores de Monforte, seguiu-se um agradável almoço, e João Augusto Moura respondeu-nos a algumas perguntas.
Sol e Sombra (SeS) - Para os poucos que não o conhecem, fale-nos um pouco de si como pessoa...
João Augusto Moura (JAM) - Sou um apaixonado pelo campo, pelos toiros e pelos
cavalos. Desde pequenino que vivo aqui no monte. Fui praticamente criado aqui. Gosto de caçar, de Acoso e Derribo, que é uma modalidade espanhola, que é a cavalo. E estar aqui na
ganadaria do meu tio (João Moura). Sempre no meio dos toiros e dos cavalos.
(SeS) - Porque escolheu o toureio a pé, quando a família Moura é, tradicionalmente, conhecida pelo toureio a cavalo?
(JAM) - Bom, na verdade, sempre tive uma enorme paixão
pelo toureio a pé. Treinava muito, em pequenino, quando fazíamos festivais aqui. Tinha 4 ou 5 anos. Eu toureava sempre a pé, e os meus primos toureavam a cavalo. Depois, quando fui estudar para
Évora, deixei de tourear durante 5 anos, e quando voltei estive como bandarilheiro com o meu tio e com o meu primo (João Moura Jr.). E no dia em que o meu primo João toureou em Ronda, decidi que o
que queria mesmo era ser matador de toiros. Só ser matador de toiros é que me enchia de verdade, ser bandarilheiro não.
(SeS) - Quando e onde começou?
(JAM) - Comecei a partir desse dia. Depois ainda toureei o resto da temporada com eles, como bandarilheiro. Mas penso que a minha maneira de
pensar mudou a partir desse dia... Passei a querer ser matador de toiros e, passei a levar as coisas muito mais a sério do que levava antes. A minha primeira temporada foi em 2007. 2007, 2008 e esta
vai ser a terceira, se Deus quiser.
(SeS) - Para quando a alternativa?
(JAM) - Bom, se tudo correr como estamos a pensar e a programar para este ano, penso que para o ano, no princípio da temporada já vou
começar a pensar tomar a alternativa.
(SeS) - Qual o cartel ideal para esse dia?
(JAM) - Gostava muito que fosse o Ponce e o El Juli, ou se não puder ser... porque penso que o Ponce se vai retirar... o El Juli e o Miguel Angel Perera.
(SeS) - Qual e melhor e pior recordação que tem do toureio a pé?
(JAM) - A pior... Ainda não houve assim nenhuma que eu diga que foi a pior, ainda não levei nenhuma cornada, graças a Deus. Não tive nenhuma corrida que fosse um fracasso. Agora boas acho que há
muitas! A minha apresentação no Campo Pequeno foi das coisas mais bonitas que eu passei até hoje. No segundo toiro quando vi o público todo de pé... isso é uma satisfação que é difícil de explicar.
E, depois, houve outros momentos bons: a Corrida de Badajoz; o meu debute em Espanha, que foi também bastante importante, em que consegui cortar duas orelhas ao meu segundo novilho. E todas as vezes
que toureei em praças importantes e as coisas saíram bem. Mas a do Campo Pequeno foi a que me marcou mais.
(SeS) - João Augusto a temporada passada deixou bom ambiente em Portugal e debutou em Espanha com Picadores, que balanço faz?
(JAM) - Penso que foi bastante bom em Portugal,
que dei uma talla muito boa. Porque, como dizem os aficionados, isto estava um bocadinho adormecido, e eu penso que consegui reavivar um pouco a memória dos aficionados do toureio a pé. Vou tentar
não defraudar e tentar triunfar, e dar o mais possível à Festa em Portugal, até porque tenho muito interesse em tourear aqui. Adoro tourear aqui em Portugal. E, em Espanha, as poucas corridas que
toureei, foi a de Badajoz. O debute correu bastante bem! e depois toureei duas no Valle del Terror, que também correram bem embora tenham sido um bocadinho mais complicadas.
(SeS) - Em que corrida se sentiu mais a gosto na temporada passada? Foi a do Campo Pequeno?
(JAM) - Penso que sim. Pelo Campo Pequeno. No primeiro toiro estava um pouco
nervoso ao princípio, com o capote. Mas depois, à medida que a lide foi decorrendo fui ficando melhor. E quando toureei o segundo, já fui mesmo com a mentalidade de triunfar... e vi, em seguida, no
capote que o toiro ia ser bom. E foi a corrida que mais me marcou até agora.
(SeS) - Qual o passo que se segue?
(JAM) - Bom o próximo passo para este ano... temos corridas muito importantes marcadas. Temos a de Sevilha, ainda não sabemos a data... Muito provavelmente, vamos a Madrid, e depois temos todas as
feiras: Valência, Málaga, Porto Santa Maria, Granada... penso que vamos ter uma temporada bastante completa.
(SeS) - Nesta temporada a afición vai exigir-lhe mais depois do bom ambiente que deixou nas nossas praças, está preparado para tal compromisso?
(JAM) - Sim, penso que sim, porque os anos vão passando e vou adquirindo mais técnica, e vou-me sentindo muito mais à vontade na cara dos toiros, e claro, mais à vontade com o público. Estou
preparado para o que o público me exija. Aliás, até quero que exijam! Porque eu sou um toureiro muito humilde, e quando não me apertam, ando ali um bocadinho a dormir. Tenho que ser apertado, que é
para “romper”. E vi isso, no ano passado, na Moita: no primeiro toiro as pessoas estavam a medir-me muito, e depois no segundo já saí de outra maneira, e o público estava um bocadinho complicado...
e, por isso, tive que me arrimar, e dar tudo para pôr aquilo de pé. E consegui. Mas penso que sim, que estou preparado para esse compromisso.
(SeS) - Vai tourear mais em Espanha ou em Portugal este ano?
(JAM) - Penso que é em Espanha, se tudo sair como deve ser e como estamos a pensar. Se for às praças importantes e a coisa correr bem. Penso que vamos tourear muito mais lá. Cá vou tourear as mais importantes: gostava de ir ao Campo Pequeno, à Moita penso que já está certo, Montijo também penso que sim, no outro dia falaram-me para Vila Franca mas ainda não acertámos nada. Gostava de ir às feiras importantes de cá...
(SeS) - O que acha do ambiente taurino em Portugal no que ao toureio a pé diz respeito?
(JAM) - Há dois anos quando o meu primo João tomou a alternativa, a seguir toureava o
Henrique Ponce, o José Luís Gonçalves e o El Juli, e eu pensei que ia ser casa cheia. E quando cheguei à praça e vi que não chegava nem a meia casa... Fiquei muito triste. Pensei que uma corrida com
aquele cartel ia esgotar! E vi que os aficionados não corresponderam às expectativas que havia para essa corrida. Mas fala-se muito nisso. E em Espanha, o que me dizem é que faz falta que saia um
toureiro português que mexa com a aficion em Espanha, para que o público português vá a Espanha e se torne aficionado. Penso que isso faz muita falta. Enquanto houver um toureiro que “tire para a
frente” e as coisas saiam bem, não só em Portugal mas também em Espanha, o público vai aderir às praças.
(SeS) - Qual vai ser a sua equipa para esta temporada?
(JAM) - Eu vou ter duas equipas diferentes, porque como em Espanha é diferente... O Pedro Gonçalves está para Portugal e Espanha, como bandarilheiro. Em Portugal tenho o Cláudio Miguel, e em
princípio o Ricardo Raimundo, que tem andado a treinar comigo e cá em Portugal pode sair em algumas, se ele se sentir preparado. Para Espanha temos o Pedro Gonçalves e os outros dois ainda estamos em
negociações... e faltam dois picadores, já que o José Paulo, infelizmente, nos deixou, tenho que procurar outro senhor para ocupar o lugar dele. O apoderado é o Luís Garzón. E o moço de espadas é o
Jaime Castillo, que já era no ano passado.
(SeS) - Acha que, se calhar, por não haver sorte de varas e não se matar o toiro, cá em Portugal, o público não adere tanto às praças?
(JAM) - Ainda há dois dias o Pedro
Gonçalves esteve aqui a treinar comigo e trouxe-me um vídeo que, por acaso, ainda não tinha visto. Devo ter visto, mas era muito pequenino porque, penso que, foi em 2001. Quando o Pedrito matou o
toiro na Moita. E atitude que o público teve perante o Pedrito depois de ter dado a estocada... aquilo foi uma coisa inédita. O público entregou-se de tal maneira ao Pedrito, que nem a guarda teve
reacção. Penso que isto foi uma chamada de atenção para as pessoas. Acho uma estupidez... até nós como toureiros quando chegamos à hora de matar, falta-nos qualquer coisa! Falta-nos rematar... é como
se como um pintor pintasse um quadro e não o assinasse. A estocada é essencial. Muita gente aqui de Monforte já me perguntou quando é que vou a Espanha aqui perto, que me querem ir ver matar! Eu vou
tentar a todo o custo... sei que é muito complicado... o Pedrito conseguiu picar algumas corridas e eu, a seu tempo, vou tentar impor-me com a ajuda dos meus companheiros, para que consigamos pelo
menos picar os toiros, já que matá-los é mais complicado, mas tudo é possível. Penso que tudo é possível.
