Entrevista a Rui Bento Vasquez

1/2/2008

Rui Bento Vasquez,
gestor taurino do Campo Pequeno 
primeira praça do país, desde a sua reinauguração,
cedeu-nos a primeira entrevista
do ano para os leitores
do "Sol e Sombra".

Sol e Sombra (SeS) - Três anos à frente do Campo Pequeno, pode-nos fazer um pequeno balanço sobre estas três temporadas?

Rui Bento Vasques (RBV) - Tem sido um desafio aliciante. Nem sempre tem sido fácil, mas com concentração nos objectivos, prudência e afición, temos conseguido atingir os objectivos que nos são fixados pela administração da empresa. 2006 foi o ano do relançamento, repor o Campo Pequeno no mapa taurino de Portugal e do Mundo. 2007 foi uma temporada de experiências, com o lançamento do concurso “À Procura de Novos Toureiros”  e da feira taurina de Lisboa, numa temporada caracterizada também por um elevado número de espectáculos. 2008 foi uma temporada de apoteose do toureio a cavalo de dinastia. Pelo Campo Pequeno têm passado os maiores nomes do toureio a cavalo mundial, como João Moura e Pablo Hermoso de Mendoza, do toureio a pé, como Enrique Ponce, “El Juli”, “El Cid”, Vítor Mendes, Sebastián Castella, os mais representativos grupos de forcados e ganadarias do maior prestígio. O Campo Pequeno foi também palco de revelações artísticas, tanto no que respeita ao toureio a pé como ao toureio a cavalo e a forcados, para além de ter confirmado o bom momento da generalidade das ganadarias portuguesas. Tudo isto acompanhado por um público que acorreu em grande número, “ressuscitando” assim a magia das nocturnas de quinta-feira no Campo Pequeno.

SeS - Sente que lhe tentaram minar o caminho durante o tempo em que está á frente do Campo Pequeno?

RBV - Há sempre quem goste de semear obstáculos, e conviva mal com o sucesso dos outros. O meu lugar como gerente taurino da primeira praça do país é apetecível e invejado por muita gente. Mas o que seria a nossa vida sem obstáculos, minas e armadilhas? E para mim a satisfação pessoal de ultrapassar obstáculos é muito grande.

SeS - Está previsto este ano a continuação do concurso " à procura de novos toureiros", ou alguma outra iniciativa do género?
RBV - Não. Há que deixar crescer artisticamente os miúdos que participaram no concurso de 2007. E com grande pena minha não vi a generalidade das empresas apostarem neles, depois do sucesso que aque concurso representou. Ainda assim, há um grupo, os finalistas, que está a ter bons resultados: Sobretudo o Manuel Dias Gomes, com várias presenças em Bolsins Taurinos em Espanha, tendo ganho o de Málaga. Mas o Montoya, o “Chamaco” e Velasquez também estão a lutar com entusiasmo por romper neste difícil mundo do toureio, frquentando a Escola Taurina de Sevilha e a de Espartinas. Há também o caso do André Rocha que está na escola de Badajoz e do Júlio Antunes, da Escola “José Falcão”, que mostram evidentes progressos em relação ao que exibiram no Campo Pequeno, no concurso de 2007. Há que dar tempo a que os mais jovens de 2007 se consolidem e que daí surjam novilheiros com interesse em quem as empresas queiram e possam apostar, para se conseguir a revitalização do toureio a pé em Portugal.
SeS - Já foram definidos parâmetros para a abertura da porta grande? Se sim, vão ser dados a conhecer antes do início da temporada?

RBV - É um assunto sobre o qual estamos a trabalhar e, quando houver novidades, serão naturalmente tornadas publicas.
SeS - A tradicional corrida de toiros da Páscoa que o ano passado não se realizou, vai realizar-se este ano, ou é uma carta já fora do baralho?

RBV - Infelizmente, a data de domingo de Páscoa mostrou que, em Lisboa, é uma data queimada. Tentámos em 2007 recuperá-la e foi um fracasso económico. Para podermos ter o Campo Pequeno que hoje temos, recuperado e uma verdadeira sala de visitas da cidade de Lisboa, não se pode dar passos em falso em termos económicos, pois há um investimento de 75 milhões de euros para amortizar.
SeS - Na temporada transacta houve uma diminuição de espectáculos, este ano irão aumentar ou vão manter-se no mesmo número?

RBV - 2009 está já assumido a nível nacional e internacional como ano de recessão económica. Como tal, não se pode esperar que o Campo Pequeno um aumento do número de corridas. A prudência não o aconselha….
SeS - O toureio a pé infelizmente não tem chamado muito público às bancadas, qual a solução? Mais corridas mistas?

RBV - O toureio a pé passa por uma grande crise em Portugal. Nos últimos 30 anos, fruto de uma estratégia empresarial errada, em termos globais, poucos foram os empresários que fizeram alguma coisa pelo toureio a pé. Como resultado, o público levou 30 anos a desabituar-se de ver corridas a pé, ou mesmo mistas. Incutir de novo no espírito do aficionado português o gosto que efectivamente já teve, pelo toureio a pé, vai demorar o seu tempo.
Quanto a haver mais corridas mistas, devo recordar que, elas têm sido, no Campo Pequeno, sinónimo de prejuízo económico. Nas outras praças não sei, pois os respectivos empresários, salvo uma ou outra excepção (Vila Franca e Moita), nem se dão ao trabalho de as montar…

SeS - Ficou satisfeito com os cartéis montados na passada temporada?

RBV - Por definição, nunca estou totalmente satisfeito com o que faço…daí que tão pouco possa estar inteiramente satisfeito com os cartéis de 2008. Tenho, isso sim, o sentimento do dever cumprido e de que pus toda a honestidade e profissionalismo em tudo o que fiz. Demos corridas de prestígio, com cartéis equilibrados, conseguimos trazer aos toiros as três estações de televisão, facto inédito, revelámos e repetimos novos toureiros, como foi o caso do novilheiro João Augusto Moura. O Campo Pequeno foi palco de corridas marcantes para os seus intervenientes (caso da comemoração dos 30 anos de alternativa de João Moura, as alternativas de Manuel Lupi, Marcos Bastinhas e João Ribeiro Telles Jr.). Tivemos também a honra de apresentar em Lisboa uma das máximas figuras mundiais do toureio, Manuel de Jesus “El Cid”. Pena que não tivesse sido possível apresentar no Campo Pequeno o Diego Ventura.

SeS - Não acha que se repetiu em demasia vários nomes para uma temporada só?
RBV - No Campo Pequeno, temos a preocupação de repetir os triunfadores…parece que as pessoas já se esqueceram os tempos de Manuel dos Santos como empresário desta praça em que, por exemplo, Mestre Batista e Luís Miguel da Veiga toureavam e enchiam a praça toureando, juntos ou com outras figuras e mesmo em corridas mistas, em mais de metade da temporada. Nem o público nem a crítica se fartavam de os ver…, antes pelo contrário.

SeS - Existe algum toureiro que gostaria pessoalmente de ver actuar ao Campo Pequeno e que ainda não tenha tido a hipótese de contratar?
RBV - Embora já tenham vindo ao Campo Pequeno as máximas figuras da actualidade, claro que há toureiros que gostaria de ver aqui e que ainda não contratei. Para lhe referir apenas jovens valores, cito dois: Manzanres e Miguel Ángel Perera, a título de exemplo…
SeS - Algumas pessoas acusam-no de que pelo facto de estar ligado à casa Chopera, foi um impeditivo para que viessem cá certos toureiros espanhois em detrimento de outros. O que tem a dizer a essas pessoas?

RBV - Apenas e só que, enquanto gestor taurino do Campo Pequeno, tentarei contratar as figuras, independentemente das casa de apoderamento de onde possam provir… tudo o resto é absurdo!
SeS - No ano que passou acabou a sua colaboração com Eduardo Gallo, está a pensar acompanhar algum toureiro esta temporada?

RBV - De momento, é prematuro falar de apoderamentos em Espanha … apesar de ter tido e continuar a ter ofertas de apoderamento, o que naturalmente me satisfaz.
SeS - Que diferenças vê entre a crítica taurina portuguesa e a espanhola?

RBV - Do ponto de vista qualitativo muitas … que sintetizaria numa só frase: Embora haja algumas excepções, a crítica tauromáquica portuguesa é, actualmente, e na sua globalidade, muito inferior à espanhola.
SeS - Apesar de na última conferência realizada no Campo Pequeno se ter referido que a passada temporada em termos de assistência foi um sucesso, não axa que se baixassem os preços um pouco mais, haveria muito mais gente em todas as corridas?

RBV - O que faz o público acorrer às praças de toiros é qualidade dos cartazes… e o seu reflexo no preço dos bilhetes. Por isso, na temporada passada diferenciámos os preços conforme as corridas e isso revelou-se uma boa opção.
SeS - Pode adiantar-nos em primeira mão algum cartel que já esteja alinhavado para esta nova temporada que está prestes a começar?

RBV - Não gosto de falar de cartéis alinhavados. Prefiro os cartéis consolidados. Quando for tempo, revelaremos os cartéis de 2009.
SeS - Fala-se por aí nos "mentideros" que o cartel da corrida de abertura para 2009 no Campo Pequeno será com António Telles a apadrinhar a alternativa de Francisco Palha e com Diego Ventura de testemunha, que lidarão toiros de Passanha. Confirma essa noticia?

RBV - Não posso de facto confirmar nada, pela simples razão de que ainda não está nada decidido.
SeS - Que mensagem gostaria de transmitir aos aficionados portugueses e em concreto aqueles que vão habitualmente ao Campo Pequeno que ainda não tenha transmitido?

RBV - Que, apesar das dificuldades económicas que estão aí patenteadas em tudo o que é entrevista de político e de empresário, o Campo Pequeno apresentará uma temporada digna da mais importante praça do país.