Texto lido no final da Missa em Honra de José João Zoio


As minhas últimas palavras

Minha querida família e amigos, hoje parti para uma nova aventura. Uma aventura que me irá permitir reencontrar os meus pais e amigos de longa data que já vos abandonaram há bastantes Invernos. Mas não chorem a minha morte; partilhem as minhas histórias e experiências e terminem cada uma delas com um sorriso na boca e um brilho nos olhos de felicidade e alegria. Como sabem, detesto tristeza…

Tive uma boa vida. Uma vida repleta de emoções. Uma vida em que dei todo o amor que tinha. Um vida em que recebi todo o amor da família e dos verdadeiros amigos. Uma vida com uma mulher, filhos e neta que jamais me abandonaram. Uma vida que me permitiu aprender com todos vocês. Uma vida que me deixou ensinar. Deixo este mundo completo e feliz. Porque choram?... detesto tristeza…

Querida “Zocas”, todas as noites dar-te-ei um beijinho e passarei as mãos pelo teu cabelo quando estiveres a dormir. Amei-te até quando te odiei e amar-te-ei até onde for impossível. E comigo nunca houve impossíveis. O impossível não nos deixa sonhar. E sem sonhar, não vale a pena viver. Eu sonhei e vivi o máximo que pude e sempre com o coração, até este o permitir. Não chores mais. Recorda-me com a alegria que eu sempre tive.

Querido Bernardo, sei que anda perdido sem a minha voz. Para se encontrar basta ouvir no seu coração o eco das minhas palavras e conselhos.

Querido Duarte, sem remorsos e sentimentos de culpa. Os pais são comos os lobos; são a carne onde os filhos afiam os dentes.

Querida “Vinhas”, o meu “bebé” e companheira. Vê-la chorar sempre foi um dia de Inverno no Verão da minha vida. Não chore. Por mim… não chore. Lembre-se que concretizei um dos nossos maiores sonhos: Voltei a pisar uma praça de touros. Sempre que tiver saudades, feche os olhos e oiça a minha voz e sinta as minhas mãos a protegê-la. Jamais deixarei de a proteger. Prometo.

Querida “netinha”, o meu orgulho e milagre. Voltaremos a encontrar-nos já esta noite, nos seus sonhos, para continuarmos as brincadeiras de ontem, mas desta vez vamos tentar não comer tantos gelados às escondidas da mãe.

Uma criança não devia dormir; acorda sempre um dia mais velha... e eu sempre tentei não dormir. Sempre desejei ser eternamente jovem. Eu fui eternamente jovem (!!!), até o meu corpo ter-me traído. 

Querida família, não dei tudo o que tinha. Dei o que tinha e não tinha sem nunca pedir nada em troca e sempre com amor e um enorme carinho. Quero que saibam que todos vocês preencheram-me. Todos.

Queridos amigos, o que dizer?... tive tantos e verdadeiros amigos. Daqueles que sabem falar e calar, mas sobretudo sabem ouvir. Não eram puros, nem impuros, mas certamente não eram vulgares. Todos nós precisamos de amigos. Todos nós precisamos de amigos para gostar dos mesmos gostos e que se comovam quando chamados de “amigo”. Que saibam conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Nunca desperdicem uma amizade que acreditam.

Não pensem que morri novo. Devia ter morrido há 15 anos, quando o coração me atraiçoou pela primeira vez. Vivi um milagre e foi-me dada uma oportunidade de saborear mais umas estações para receber todo o vosso amor. Espero profundamente que também vos tenha tocado. Sempre tentei deixar uma pegada em cada passo que dei. Ao ver todos vós reunidos neste momento, a lembrarem-se de mim e de como eu era um homem feliz e bondoso e com um enorme amor e amizade para dar, creio que consegui. O que mais um homem pode pedir?... deixei o vosso mundo completo e com um profundo sentimento que cumpri a minha missão. Não deixem de cumprir a vossa. Não se esqueçam de palavras como “amor” e de sentir verdadeiramente o que é a vida. E fazei como eu: andem sempre de cabeça erguida contra quem vos queira lançar as mãos à garganta, pois só mais tarde compreenderão que toda a beleza da vida reside na força de uma esplêndida vontade.

Minha querida família e amigos, hoje parti para uma nova aventura. Não chorem. Detesto tristeza. Adoro-vos a todos. Jamais morrerei. Vocês nunca o irão permitir.

José João Zoio

Despedimo-nos de José João Zoio

Quando alguém parte deixa sempre um vazio, seja nos familiares, seja nos amigos, seja nos colegas. A dimensão desse vazio é dada pelo espaço que cada pessoa dedicava no seu coração a essa pessoa que parte. Ao todo, a partida tão súbita e prematura de D. José João Zoio, deixa um vazio verdadeiramente enorme.

Não é só a família e os amigos, mais todos aqueles que lidaram com ele profissionalmente - sem que a relação profissional signifique que não havia também amizade, pois era um homem de quem se era facilmente amigo -, são também aqueles que o admiravam como cavaleiro tauromáquico. Há agora, de facto, um vazio na tauromaquia portuguesa pois partiu uma das suas figuras.

Mestre José João Zoio partiu numa altura em que o via mais frequentemente no Facebook do que nas arenas (apesar de ser frequente vê-lo no Campo Pequeno e de o ter visto pisar aquela praça a cavalo na alternativa de Duarte Pinto, na que seria a última vez a estar numa arena), onde assiduamente colocava música e imagens para deleite dos seus amigos.

Recordações que íamos elogiando, e colocava também frases para dar alento e conselhos a todos os que entravam na sua página do Facebook na internet.
A última frase, colocada no Domingo dia 30, é de Pitágoras e lembra para que nenhuma pessoa gabe a sua felicidade diante daqueles que não estejam com o mesmo grau de felicidade que ela. Não voltarei a associar essa máxima ao grego que a disse, ficará para mim como o último conselho do Mestre Zóio.

O tal vazio que inesperadamente assentou sobre a família tauromáquica portuguesa, passa por lembrarmos que José João Zoio sabia encarar a vida, e quem encara a vida não teme nada, nem a morte. O seu trajecto na Festa foi prova disso, apesar de encurtado indevidamente devido a uma queda em Alcochete que lhe lesionou a coluna...
A sua estreia, em 1968, foi na Nazaré, com 18 anos e veio a prestar prova para cavaleiro praticante em 1972, tomando alternativa no ano seguinte, no Campo Pequeno. Foi padrinho de alternativa outro Mestre, o Califa de Álcácer, João Branco Núncio.

Em 1991 ainda cumpriu a temporada, ao lado de outra figura do toureio nacional que este ano está a ser homenageada, António Badajoz, que foi o seu bandarilheiro de confiança e que cortou coleta no mesmo dia que D. José João Zoio se despediu das praças, em Lisboa, numa corrida que me recordo de ver de um camarote e de ter a casa bem cheia. Voltei a vê-lo trajado no Campo Pequeno para ser testemunha de honra de Duarte Pinto, no passado dia 23 de Julho. Fazia anos 60 no próximo dia 1 de Outubro.

Também no Facebook ele tinha como mote uma frase extraordinária como ele foi, como pessoa e como artista: "Fazei como eu, caminhai de cabeça erguida contra quem queira lançar-vos as mãos à garganta. Porque só mais tarde compreendereis que toda a beleza da vida reside na força de uma esplêndida vontade".
Que sirva de despedida esta maneira de viver a vida que tão cedo deixou para trás.

Sílvia Del Quema - 1/9/2009

JOSÉ JOÃO ZOIO e o SABIK

SABIK – Ruço, com ferro José de Sousa Fernandes, filho do Ervideira e de uma égua lusitana com o ferro de José de Sousa Fernandes.

“Com o Sabik, foram escritas das mais belas páginas do toureio montado português. Cavalo de grande classe, fino interprete da bruxaria do temple, com ele as correrias eram desnecessárias, pois que, movendo-se em cadenciado galope ou mesmo quase a passo, não nada hipótese aos toiros mesmo que animados da maior violência… Cavalo toureiro por excelência, sentia e interpretava o toureio devidamente enquadrado  na mensagem Belmontista (para tourear quem tem de correr é o toiro). Perfeitamente sincronizado com essa faceta, Zoio soube explorar aquele “duende” para produzir do mais belo toureio montado que no mundillo taurino foi produzido… Não posso, sem que um sentimento de saudade assole a minha alma, deixar de recordar aquela toureríssima atitude do Sabik ao receber o toiro, oferecendo a sua galharda espádua ao inimigo e, com estranha magia, deixá-lo por debaixo do toureiro, dando a possibilidade de cravar a ferragem de alto a baixo, inteiramente subordinada aos cânones do verdadeiro toureio montado.” 

José Tello Barradas, In NOVO BURLADERO N.º 61, Abr./Mai. 1987